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Rota das Capelas: Retornei agradecido e renovado pela profunda experiência mística



"Não importa se você já esteve neste lugar... O segredo da vida é reeditar uma aventura sempre que for possível".

Após dolorosa inflamação no dorso do meu pé esquerdo, precisei passar por avaliação médica no final de 2016 e, depois de algumas sessões de fisioterapia, complementadas por eficientes anti-inflamatórios, fiquei proibido de caminhar longas distâncias por, exatos, 40 dias. Vencido esse difícil interregno, resolvi testar minha sanidade física e, para tanto, dimensionei percorrer um módico roteiro, com o fito de aferir se minha recuperação fora alcançada. Estudando, com calma, as possibilidades viáveis, resolvi retornar à Rota das Capelas, visto ela se iniciar muito próximo de minha residência e não oferecer grandes obstáculos altimétricos em seu percurso. Isto decidido, parti para a minha jornada, e um pouco do que vivenciei nos 3 dias, quando venci 93 quilômetros, a pé.

1º dia: AGUAÍ/SP ao SANTUÁRIO DE SANTA LUZIA (ESPÍRITO SANTO DO PINHAL/SP) – 32 quilômetros

"Não espere ficar doente ou morrer para descobrir que você teria preferido viajar mais enquanto estava com vida e saúde. Aproveite o tempo agora para fazer o que você realmente ama e você descobrirá que tem tempo para fazê-lo." (Alan Cohen) Adentrei em um ônibus da Viação Santa Cruz e, duas horas mais tarde, já em Aguaí, me hospedei na Pousada Primavera onde, por R$83,00, pude dispor de um quarto individual, limpo e confortável. Conforme adredemente agendado, logo depois recebi a agradável visita do Ronaldo Romualdo, tarimbado turismólogo, atualmente, o mantenedor da Rota das Capelas.


Com o grande amigo Romualdo, em Aguaí/SP

Com ele, adquiri duas camisetas alusivas a esse Caminho, bem como tomei informações relativas ao trecho derradeiro, mais especificamente, o situado entre Andradas/MG e Ibitiúra de Minas/MG, onde algumas dúvidas persistiam em minha cabeça. Fizemos algumas fotos, depois saí passear pela cidade e, minha primeira preocupação foi visitar a igreja matriz da cidade que, infelizmente, se encontrava em reformas e estava fechada.

Depois de me abastecer com víveres num supermercado local, me recolhi, pois o dia seguinte seria difícil, visto que a região vivenciava uma longa estiagem e era assolada por sol forte e baixa umidade na atmosfera. Nesse pique, levantei às 4 horas, fiz alongamentos, ingeri uma banana e uma barra de chocolate. Depois, solicitei ao porteiro noturno que registrasse uma foto de minha partida.


Deixando a Pousada Primavera e iniciando a jornada do dia.

E, exatamente, às 4 h 45 min, para fugir do calor reinante, dei início a minha jornada. Na sequência, transitei calmamente por ruas citadinas vazias e profusamente iluminadas. Aproximadamente, 4 quilômetros percorridos, por um viaduto, eu transpus a rodovia SP-344, que liga Aguaí a São João da Boa Vista e, na sequência, acessei a rodovia vicinal Júlio Duarte, que vai em direção ao bairro 3 Fazendas. Essa estrada é asfaltada e segue sempre entre grandes plantações agrícolas. Infelizmente, ela não contém acostamento, porém o trânsito de veículos em seu leito era praticamente inexpressivo naquele horário. Tudo estava muito escuro, posto que vivenciávamos os estertores do “horário de verão”, mas com minha potente lanterna de mão, segui meu rumo sem titubear. O céu que inicialmente se apresentara cravejado de brilhantes estrelas, em determinado horário, nublou completamente e eu, apesar de caminhar extremamente atento ao que me rodeava, passei sem avistar a primeira capelinha existente nessa Rota, situada no sétimo quilômetro.

Porém, mil metros adiante, já com o dia clareando, pude fotografar a segunda capela e ali fiz uma pausa reflexiva para orações. O sol logo despontou e pude seguir meu rumo sem maiores empecilhos.


RESUMO DO DIA: Tempo gasto, computado desde Aguaí/SP até o Santuário de Santa Luzia, em Espírito Santo do Pinhal/SP: 06 h 02 min.

Clima: Nublado e fresco no início da jornada, depois sol forte. Pernoite no Hotel Santos – apartamento individual razoável – Preço: R$70,00 Almoço no Restaurante do Supermercado Campeão: Excelente – Preço: R$39,00 o quilo, no sistema Self-Service. Para visualizar ou baixar essa trilha, acesse o link: https://pt.wikiloc.com/wikiloc/view.do?id=16415041

2º dia: SANTUÁRIO DE SANTA LUZIA (ESPÍRITO SANTO DO PINHAL/SP) a ANDRADAS/MG – 27 quilômetros

"Aquilo que para o cidadão comum significa uma vida de privação, o caminhante interpreta como libertação: não mais estar preso na teia de intercâmbios, não mais se limitar a ser um nó da rede que redistribui informações, imagens, produtos; notar que tudo isso tem por realidade e importância tão somente as que eu lhe atribuir. Meu mundo não apenas não desaba por não estar conectado, mas além disso essas conexões de repente se mostram como entrelaçamentos pesados, sufocantes, apertados demais." (Frédéric Gros)

Eu havia contratado um taxista para me apanhar às 5 h 15 min no hotel, e me levar até o Santuário de Santa Luzia, distante 6 quilômetros dali, e no horário aprazado o Sr. João estacionou o veículo, eu adentrei em seu interior e, em 15 minutos, aportava ao local onde eu havia encerrado a etapa no dia anterior. Depois de pagar a corrida (R$40,00) e me despedir do simpático motorista, fiz uma pausa para orações e aquecimento. Então, determinado, acendi minha lanterna e dei início a jornada do dia.


RESUMO DO DIA: Tempo gasto, computado desde o Santuário de Santa Luzia em Espírito Santo do Pinhal/SP, até o Pálace Hotel, em Andradas/MG: 5 h 18 min. Clima: Nublado e fresco no início da jornada, depois sol forte. Pernoite no Pálace Hotel – apartamento individual excelente – Preço: R$60,00 Almoço no Restaurante Styllus: Excelente – Preço: R$19,90, pode-se comer à vontade no Self-Service. Para visualizar ou baixar essa trilha, acesse o link: https://pt.wikiloc.com/wikiloc/view.do?id=16424006

3º dia: ANDRADAS/MG a SANTA RITA DE CALDAS/MG – 34 quilômetros

"O que sentimos quando caminhamos? Tudo fala conosco, nos cumprimenta, chama nossa atenção: as árvores, as flores, as cores do caminho. O sopro do vento, o zumbido dos insetos, o curso do riacho, o impacto das pisadas sobre a terra: é todo um rumorejar que responde à nossa presença. Até mesmo a chuva; uma chuva lenta e suave é um acompanhamento permanente. É impossível estar só quando caminhamos, de tanto que dispomos de coisas ao alcance dos olhos, que nos são dadas, que são nossas pela tomada de posse da contemplação. É preciso conhecer a embriaguez do monte, quando num último esforço conseguimos nos elevar sobre a ponta do rochedo, lá sentamos e descortina-se finalmente para nós a perspectiva, a paisagem. Todos esses terrenos cultivados, essas casas, essas florestas, essas trilhas, tudo é nosso, para nós. Tornamo-nos dominadores pela ascensão, agora só nos resta usufruir esse domínio." (Frédéric Gros)

O percurso do dia seria longo e difícil, dessa forma, deixei o local de pernoite exatamente às 4 h 45 min, seguindo por ruas frias e ventosas, em direção à saída da cidade. Alguns ônibus já circulavam pela simpática urbe, a maioria deles utilizada para o transporte de trabalhadores rurais. Dois quilômetros percorridos em bom ritmo, quando a iluminação urbana se findou, eu acionei minha lanterna e prossegui em frente intimorato.



13 quilômetros percorridos, entrei à esquerda e voltei à terra.


Descendendo em direção a paisagens surreais... RESUMO DO DIA: Tempo gasto, computado desde o Pálace Hotel, em Andradas/MG até o Granville Hotel, em Santa Rita de Caldas/MG: 6 h 37 min.

Clima: Nublado no início da jornada, depois sol forte.Pernoite no Granville Hotel, – Apartamento individual excelente – Preço: R$60,00

Almoço no Restaurante do Biguá e Dona Fiinha: Excelente – Preço: R$15,00, pode-se comer à vontade no sistema Self-Service.

Para visualizar ou baixar essa trilha, acesse o link: https://pt.wikiloc.com/wikiloc/view.do?id=16434942

FINAL

“Uma peregrinação se distingue de uma viagem comum pelo fato de que não segue um plano ou itinerário prévio, não tem em vista um alvo fixo ou um propósito limitado, mas contém seu significado em si mesmo, baseando-se num impulso interno que opera em dois planos: no físico e no espiritual.” (Anagarika Govinda)


Com o amigo Romualdo em Aguaí/SP.

Poucos locais são tão propícios para reflexionar do que um avião, um navio, um trem em movimento ou uma peregrinação. Há uma correlação quase estranha entre o que está diante de nossos olhos e os pensamentos que nos podem ocorrer: grandes pensamentos às vezes exigem grandes panoramas, novos pensamentos, novos lugares. O pensamento melhora quando se atribuem outras tarefas a partes da mente. A paisagem distrai por um tempo aquele setor nervoso, crítico e prático da mente que tem uma tendência a se trancar, quando percebe que algo difícil está vindo à tona na consciência, e que foge apavorado de lembranças, anseios, ideias introspectivas ou originais, preferindo, em vez disso, o aspecto administrativo e impessoal. Ao fim de horas de devaneios, podemos ter a sensação de termos sido devolvidos a nós mesmos – ou seja, trazidos de volta ao contato com emoções e ideias de suma importância para nós. Não é necessariamente em casa o melhor lugar para encontrar nosso verdadeiro eu. A mobília insiste em que não podemos mudar porque ela não muda; o cenário doméstico mantém-nos atrelados à pessoa que somos na vida comum, mas que pode não ser quem somos na essência.


Momento de grande alegria: a chegada à Igreja Matriz de Santa Rita de Caldas/MG.

Partindo desses pressupostos, diria que meu retorno à Rota das Capelas, proporcionou momentos de solidão e silêncio mas, também, de intensa introspecção; um profundo mergulho em meus sentimentos. Foram somente três dias de caminhada, sob sol forte e clima árido, mas, ainda assim, retornei agradecido e renovado pela profunda experiência mística que novamente vivenciei nesse roteiro. O aporte ao Santuário de Santa Rita de Caldas foi emocionante, pois coroou com louvor todo o meu esforço físico e religioso, após percorrer novamente esse roteiro sacro.

Bom Caminho a todos!

#rotadascapelas